terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Tragédias

Deslizamentos e história das mentalidades Ano Novo, vida nova.

Para milhares de pessoas, que perderam casas, familiares e amigos em inundações e deslizamentos de terras na passagem de 2009/2010, essa frase, de uso frequente no início de cada ano, tem conteúdo difícil de assimilar.

Não é possível reverter o tempo e assim anular acontecimentos dolorosos como esses. Mas é possível e necessário fazer esforços para que eles sejam minimizados ao longo deste e outros anos que virão.

As informações da mídia, quase sempre de conteúdo superficial, invariavelmente se referem às chuvas continuadas como vilãs por trás desses acidentes. Em alguns casos fala-se de “desastres naturais” como se deslizamentos de encostas fossem equivalentes a vulcanismos ou tremores de terra, esses, sim, fenômenos imprevisíveis.

Ao contrário das ocorrências imprevisíveis, no entanto, que podem resultar em desastres naturais, a quase totalidade dos casos de deslizamentos e inundações que levam à perda de vidas e prejuízos materiais estão associados à negligência de quem é pago para evitar que ocorram.

A enseada do Bananal, na Ilha Grande, onde a pousada Sankay e casas vizinhas foram engolidas por uma avalanche de terra, rochas e árvores retorcidas é um exemplo claro disso.

Não é preciso, necessariamente, ser geólogo para se dar conta de que a elevada inclinação do terreno, em cujo sopé se localizava a pousada, só é explicável pela presença de uma estrutura rochosa, um esqueleto coberto por uma fina camada de solo, ainda que repleta de vegetação.

Encharcada pelas chuvas comuns à época do verão, essa cobertura pode soltar-se com facilidade dando origem a avalanches devastadoras.

Não é preciso, necessariamente, ser um geólogo para se dar conta desse risco evidente. Mas é necessariamente preciso que geólogos e outros especialistas em ciências da Terra investiguem as condições locais antes que o poder público, quase sempre as prefeituras municipais, autorizem as construções, familiares ou coletivas. Neste caso, moradias da população local e hotéis ou pousadas, como a Sankay.

Ocorre, com frequencia assustadora, que a percepção dessa obrigatoriedade representada em última instância pela figura do prefeito municipal, simplesmente não existe. Isso significa que os prefeitos municipais estão menos preparados que se costuma imaginar para administrar os espaços sob suas responsabilidades.

Quem estiver interessado em conhecer as origens históricas dessas mazelas, que a mídia costuma interpretar como “acidentes naturais”, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda, é uma obra perfeita. Neste clássico, cada vez mais profundo sobre a história das mentalidades, reflete-se como num espelho, cenas do nosso cotidiano.

Prefeitos despreparados e ou irresponsáveis, fiscalização incompetente e ou corrupta, cidadãos alienados da responsabilidade que devem ter consigo mesmo, com a família e com os demais. Presença do Estado sob a forma de tributação (outra das heranças antigas do Brasil), mas inteiramente ausente na garantia da cidadania.

Esses são alguns dos itens que caracterizam a história das mentalidades do Brasil.

Falta de previsão faz com que construções ocorram em áreas de declive ou no vale de rios por onde o excesso de água escorre durante chuvas pesadas por força da gravitação universal, coisa que Isaac Newton explicitou em 1686.

Isso significa que as águas, ou o excesso de água, não sobe, mas desce montanhas com velocidade assustadora, mas perfeitamente previsíveis e por isso mesmo evitáveis.

Economistas costumam identificar países não desenvolvidos (em desenvolvimento, ou emergentes, na terminologia dos eufemismos que camuflam realidades) a partir de itens como renda, consumo de eletricidade e outros.

Um filósofo da ciência, o físico argentino Mario Bunge (90 anos), no entanto, defende, em um de seus livros, que um país atrasado é apenas um país com mentalidade atrasada.

Esse é o nosso karma, como se pode depreender de uma leitura de Raízes do Brasil.